Crise na Ucrânia: pacto de não agressão entre China e Rússia alerta EUA e Europa

Quando Wang Yi, o ministro das Relações Exteriores da China, pediu no sábado mais diálogo para resolver a crise na Europa, disse que a soberania da Ucrânia deveria ser “respeitada e salvaguardada” — mas também ficou do lado da Rússia ao dizer que a ampliação da Otan estava desestabilizando o continente.

— Se a Otan continuar se expandindo para o Leste, isso é propício para manter a paz e a estabilidade na Europa? — indagou ele, por vídeo, na Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha, evento anual que discute as grandes questões geopolíticas e da qual a vice-presidente Kamala Harris participava pessoalmente.

Autoridades atuais e anteriores dos EUA e da Europa dizem estar alarmadas com o fato de que um pacto de não agressão entre a China e a Rússia possa significar um realinhamento da ordem mundial. Prevendo um novo tipo de Guerra Fria, funcionários do governo Biden dizem que os EUA trabalharão para criar e reforçar suas próprias coalizões de nações democráticas — incluindo novos grupos na Europa e na região Ásia-Pacífico — e ajudar os países aliados a desenvolver capacidades militares avançadas.

John F. Kirby, o porta-voz do Pentágono, disse na semana passada que o governo dos EUA observava o “relacionamento crescente” entre a China e a Rússia. Ele afirmou que uma declaração conjunta emitida pelos dois países no início de fevereiro, quando os presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China, reuniram-se em Pequim, mostrou que a China estava por trás do movimento militar de Putin em torno da Ucrânia.

— Seu apoio tácito, se preferir, à Rússia é profundamente alarmante e, francamente, ainda mais desestabilizador para a situação de segurança na Europa — disse Kirby.

Nas últimas semanas, as duas nações negociaram um contrato de 30 anos para a Rússia fornecer gás à China por meio de um novo gasoduto. Eles bloquearam uma exigência de Washington de que as Nações Unidas imponham sanções adicionais à Coreia do Norte por causa de novos testes de mísseis, embora os dois países tenham concordado com sanções semelhantes antes. E a Rússia deslocou um grande número de tropas da Sibéria para o Oeste, um sinal de que Moscou, ao se preparar para uma potencial invasão da Ucrânia, confia na China ao longo de sua fronteira compartilhada no Leste.

Esse longo namoro atingiu um pico com a declaração conjunta de cinco mil palavras que dizia que parceria entre os dois países “não tinha limites”, o que alguns funcionários do governo Biden veem como um ponto de virada nas relações China-Rússia e um desafio ao poder americano e europeu. Foi a primeira declaração em que a China se juntou explicitamente à Rússia na oposição a qualquer expansão adicional da Otan, e os dois países denunciaram a estratégia de Washington no Pacífico e sua nova parceria de segurança, a Aukus, que inclui Reino Unido e Austrália. As nações também descreveram Taiwan como “uma parte inalienável da China”.

A China e a Rússia declararam que trabalhariam com outros países para “promover a democracia genuína” nas instituições globais e combater a ideologia e as instituições lideradas pelos americanos — construindo uma nova ordem mundial na qual as autocracias não são contestadas, na interpretação das autoridades dos EUA e da Europa.

— Eles buscam uma nova era, como dizem, para substituir a ordem internacional existente —disse Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, em Munique no sábado. — Eles preferem o governo do mais forte ao Estado de direito, intimidação em vez de autodeterminação, coerção em vez de cooperação.

O fortalecimento dos laços China-Rússia pode anunciar uma reconfiguração do triângulo de poder que definiu a Guerra Fria e que o presidente Richard Nixon explorou há 50 anos, quando fez uma visita histórica a Pequim para normalizar as relações diplomáticas. Isso ajudou os EUA e a China a contrabalançar a União Soviética. Os laços entre Pequim e Moscou vinham se desfazendo há anos por questões de ideologia e política externa.

O contrário está acontecendo agora.

— É certamente preocupante, e não é um desenvolvimento positivo do ponto de vista da segurança nacional dos EUA ou dos interesses nacionais dos EUA — disse Susan Shirk, presidente do 21st Century China Center da Universidade da Califórnia, em San Diego. — Eles têm uma espécie de perspectiva comum sobre os EUA agora, e há essa afinidade entre os líderes.

Shirk disse que o presidente Joe Biden, no entanto, deveria tentar se envolver na diplomacia com Xi para convencê-lo a agir com os EUA na crise da Ucrânia criada pela Rússia.

Conveniência

A China e a Rússia não estão unidas pela ideologia e estão em um casamento de conveniência que é mais necessário para a Rússia. Embora Xi aprecie o desafio de Putin aos EUA, ele não quer a incerteza econômica que uma guerra europeia traria. A China também tradicionalmente insiste em respeitar a soberania de todas as nações, como Wang deixou claro no sábado.

Há limites para o que a China faria para ajudar Putin se ele invadir a Ucrânia. Depois que Washington determinar sanções à Rússia, as empresas chinesas podem comprar mais petróleo e gás da Rússia e ajudar a preencher algumas lacunas tecnológicas, mas os principais bancos estatais chineses provavelmente vão se abster de violações explícitas das sanções por medo de serem excluídos do sistema financeiro global.

Xi e Putin se encontraram 38 vezes como líderes nacionais. Eles compartilham o desejo de restaurar suas nações a uma antiga glória que veem como tendo sido despojada de suas terras natais pelas potências da Europa Ocidental, os EUA e, no caso da China, o Japão. Ambos estão obcecados com o desmembramento da União Soviética em 1991: Putin busca forçar o retrocesso no relógio para uma era pré-colapso, enquanto Xi pretende evitar que a China tenha o mesmo destino que o império soviético. Eles acusam Washington de fomentar protestos em massa e movimentos democráticos em todo o mundo para derrubar outros governos.

Um conflito intensificado com a China e a Rússia teria uma forma diferente da Guerra Fria. A economia comercial da China está profundamente integrada à de outras nações, incluindo os EUA, e a Rússia é um importante exportador de energia para a Europa. Por razões práticas, os três governos não conseguiriam bloquear completamente as trocas comerciais entre si ou formar blocos econômicos distintos com países parceiros, como nos tempos da Cortina de Ferro.

A China é o maior parceiro comercial da Ucrânia, e Pequim reconhece a soberania do país há décadas. Nunca reconheceu a anexação da península ucraniana da Crimeia pela Rússia em 2014. Notavelmente, a declaração conjunta não fez menção explícita à Ucrânia.

 

Fonte: O Globo / Foto: Reuters

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